quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Suicídios podem crescer com mais desemprego e menos apoios sociais

O aumento do desemprego e das desigualdades e a diminuição dos apoios sociais criam "as condições para a ocorrência de um maior número de suicídios", alertou hoje um especialista.

"O suicídio é um fenómeno complexo e multifacetado e por isso é difícil fazer uma relação entre o que quer que seja e o suicídio".

Contudo, "é expectável que haja um aumento do número de casos" face à actual situação económica e social que o país atravessa, afirmou o presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidiologia (SPS), José Carlos Santos.

Participando no VIII Congresso Nacional de Psiquiatria 2012, a decorrer no Porto até sábado, o responsável considerou que é preciso ter em conta o que aconteceu na Grécia e na Irlanda, em que, de acordo com estudos feitos em 2009, "houve um aumento dos suicídios que foi paralelo à crise económica".

Nos anos 1990, "na Dinamarca, isso não aconteceu", salientou, explicando que, apesar de ter registado um aumento da taxa de desemprego, a Segurança Social reforçou os apoios a dar às pessoas em crise.

"A taxa de desemprego aumentou muito e é um fator determinante para as questões do suicídio e, ao mesmo tempo, assistimos a uma diminuição nos apoios da Segurança Social. Se estamos a limitar as pessoas que estão já em situações difíceis do ponto de vista económico e social não estamos a protegê-las para os comportamentos do foro suicidário, estamos sim a fragilizar ainda mais para este tipo de comportamentos", sublinhou José Carlos Santos.

Adiantando que "há discrepâncias" entre os números oficiais que existem sobre suicídios no ano passado, que não permitem concluir que houve um aumento do número de casos, o responsável afirmou, contudo, que "tem havido uma maior procura de consultas" para casos de suicídio.

"É preciso estarmos muito atento. Temos condições para que aumente [a incidência], tendo em conta a crise social e, concomitantemente, a acessibilidade [a cuidados primários de saúde] é fundamental", explicou.

Falando no congresso sobre "Comportamentos suicidários: da prevenção à pósvenção", a médica Inês Rothes apresentou um estudo que indica que 75% de idosos contactaram com o seu médico de família no mês anterior ao suicídio.

"Ninguém lhes pergunta qual foi o impacto da reforma na sua vida, ninguém lhes pede para dizer como é o seu dia-a-dia", alertou José Carlos Santos, considerando "ser necessário olhar para o grito de alerta" das pessoas, que muitas vezes recorrem ao médico de família com queixas, como uma dor de barriga ou de uma perna, para as quais não há um diagnóstico médico.

No âmbito desse estudo, a investigadora conclui que também os profissionais de saúde sofrem com o suicídio de um paciente e que estes "não tendem a pedir ajuda" nestas situações.

Através de um inquérito realizado a 242 profissionais, entre psiquiatras, psicólogos e médicos de clínica geral, foi possível concluir que "o sofrimento emocional é o sentimento mais frequente (47%)" em caso de suicídio de um paciente.

Económico/Lusa

Homens, pais e vítimas de violência doméstica

O número de homens vítimas de violência doméstica é cada vez maior e julgar que as agressões delas são menos violentas é incorrer num lugar-comum grave. Conheça a história de João Paiva Santos, que resolveu contar o que outros homens cada vez mais têm vergonha de denunciar.

Os dados nacionais cedidos ao Expresso pela direção de investigação criminal da GNR, em 2011, registam 848 casos de homens, entre os 18 e os 64 anos, agredidos pela mulher ou ex-companheira. Este ano, só no primeiro semestre já foram registados 457 casos.

Estes dados, no entanto, não refletem o que se passa na realidade. Sabe-se que são muitos os crimes desta ordem que ficam por confessar ou aqueles em que o histórico de violência contínua só é conhecido quando a vítima morre às mãos da agressora.

Straus Murray, co-fundador do laboratório de pesquisa familiar da Universidade New Hampshire, escreveu, num dos seus estudos sobre o tema, que "se uma mulher é agredida pelo marido a cada 15 segundos, um homem é agredido pela mulher a cada 14,6 segundos".

O professor sem medo

No decorrer desta reportagem, o Expresso teve uma enorme dificuldade em encontrar homens que apesar de reconhecerem ser vítimas de violência doméstica aceitassem falar, ainda que sob anonimato. Apenas um aceitou dar o seu testemunho, acreditando que esta pode ser uma forma de "encorajar outros homens" na mesma situação.

João Paiva Santos é professor no Instituto Politécnico de Beja e deu a cara pela sua história. Com 44 anos, João sabe bem o peso da violência que nem sempre é física. Durante cerca de 20 anos foi agredido várias vezes, perdeu a autoestima, a casa. E agora luta nos tribunais para poder continuar a ver os filhos (veja a reportagem no vídeo 1 nesta mesma página).

O Expresso tentou variadas vezes confrontar a ex-mulher de João Paiva Santos, mas esta recusou sempre falar, alegando agir assim a conselho da sua advogada.

A violência doméstica é um crime sem sexo - as mulheres deixaram há muito tempo de ser as únicas vítimas. Elas também agridem os companheiros e, muitas vezes, usam - e abusam - de violência camuflada. A constante desvalorização do outro, os ciúmes e a pressão psicológica são retratos do dia a dia de muitos homens.

Crimes igualmente violentos

Sim, elas também usam a força. E não, não é por muitas serem mais fracas fisicamente que agridem com menos violência.

Tal como explicou ao Expresso Adelina Barros de Oliveira, juíza do Tribunal da Relação de Lisboa, as mulheres agridem "com o que têm à mão. E o que têm à mão normalmente não é leve". Ao que se alia muitas vezes "alguma ou muita maldade" (veja a entrevista na íntegra no vídeo 2 nesta mesma página).

Pior: são cada vez mais os casos de violência doméstica contra homens que terminam em homicídio ou em que eles são vitimados com requintes de malvadez. A propósito disto, Daniel Cotrim, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), recorda casos de homens que viviam constantemente com medo de serem envenenados ou foram perseguidos e atropelados pelas mulheres e companheiras.

País não está preparado para lidar com o fenómeno

Durante a entrevista ao Expresso, o mesmo responsável da APAV admite que a sociedade e as organizações "não estão preparadas para receber este tipo de vítima". O facto é que Portugal não tem associações que recebam em exclusivo homens vítimas de violência doméstica, muito menos as chamadas casas-abrigo para os agredidos e perseguidos, à semelhança do que acontece com as mulheres que são vítimas.

A subcomissária da divisão de investigação criminal da PSP, Angelina Ribeiro, considera que os casos de violência doméstica contra homens estão a "aumentar significativamente" e que já justificavam a existência destas casas de apoio. A agente salienta que é necessário um maior alerta para este tipo de crime que, sendo público, cabe a todos denunciar.

Mas é ainda entre quatro paredes que ficam escondidos muitos destes crimes. Atormentados pela vergonha, a maioria dos homens continua a não admitir ser vítima nas mãos de uma mulher e muito menos têm a coragem de apresentar queixa junto das autoridades.

Além da vergonha e do medo de represálias por parte de uma sociedade que, de acordo com as palavras do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, é "profundamente machista" (veja a entrevista na íntegra no vídeo 3 nesta mesma página), existe um vincado sentimento de "amor-ódio" por parte da vítima em relação ao agressor - conforme explica o sociólogo Pedro Vasconcelos.

Já o psicólogo Vitor Cláudio vai mais longe nesta explicação e acrescenta que, nestes casos, a vítima simplesmente "não vê caminho" e rende-se à inevitabilidade da relação (veja a entrevista na íntegra no vídeo 4 nesta mesma página).

O pior pode ainda acontecer quando, de acordo com o mesmo especialista, a maior parte destes quadros relacionais se repete nos relacionamentos seguintes. Ou seja, o indivíduo tem uma tendência natural para se relacionar novamente com um outro agressor, criando um ciclo sentimental vicioso.

Afinal, eles também choram

A cortina da vergonha, o preconceito de que um homem não chora e o tabu social que envolve o tema continuam a acalentar a ideia erradíssima de que a mulher é a única vítima de violência doméstica.

Tal como acontece no caso das mulheres vítimas de violência doméstica, estamos perante um crime público onde a sociedade insiste na postura de não querer "meter a colher". Certo é que (como mostra o vídeo 'números' que acompanha esta reportagem), cada vez mais os homens também choram e maioria deles longe de tudo e de todos.



Ler mais: http://expresso.sapo.pt/homens-pais-e-vitimas-de-violencia-domestica=f770120#ixzz2DZfESVwa

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Muitas crianças diagnosticadas com hiperactividade afinal têm problemas de sono

O director do serviço de Pediatra do Centro Hospitalar Leiria-Pombal alertou hoje para a falta de informação sobre os problemas do sono, o que leva, por vezes, a diagnósticos incorrectos de hiperactividade e défice de atenção em crianças e adolescentes.
Apesar de não existirem "números exatos" em Portugal, Bilhota Xavier revelou à agência Lusa que, "de acordo com dados de outros países, mais de 25 por cento das crianças tiveram em alguma fase da sua vida problemas ou patologia do sono".

"Existem vários problemas do sono, como crianças que têm grande agitação durante o sono", o que perturba a "boa higiene do sono". Bilhota Xavier aponta ainda as patologias que afectam as crianças como o ressonar e a apneia obstrutiva.

Ao contrário dos adultos, quando dormem mal, "as crianças ficam muito mais agitadas e mexidas" e "têm uma capacidade de atenção muito mais diminuída".

Estes comportamentos levam, por vezes, os médicos a diagnosticar défice de atenção e hiperactividade de forma errada em algumas crianças.

"Os próprios profissionais de saúde nem sempre estão devidamente informados e atentos a estas questões e acabam por prescrever injustificadamente estimulantes do sistema nervoso central", alertou.

"Estas são as principais razões para que haja em Portugal uma percentagem excessiva de crianças medicadas com sedativos, estimulantes do sistema nervoso central e medicamentos para as cólicas, quando estas crianças precisam é de ver tratado o problema do sono", acrescentou o pediatra.

Para Bilhota Xavier, os problemas do sono começam na fase do nascimento, "quando surgem as ditas cólicas, que não são mais do que a adaptação do seu ciclo vigília/sono".

Este período provoca "desestabilização" nas famílias e leva os pais a procurarem soluções para o desconforto da criança.

"Sem saber como se hão-de orientar, põem a criança a dormir com eles, adormecem-na ao colo ou acompanham-na quando muda de quarto. Cria-se logo aqui uma perturbação nos mecanismos que devem ser os indutores do sono".

O pediatra desaconselha ainda a luz acesa durante a noite, nem que seja apenas de presença, porque "a luz é um elemento muito importante para que o relógio biológico funcione" e que "o ciclo vigília/sono se vá estabelecendo".

A insónia surge durante a adolescência, devido a um "atraso de fase". Isto é, "em vez do seu relógio biológico dar sonolência por volta das 22 ou 23 horas, estes jovens têm um atraso e sono aparece mais tarde", explicou.

Esta situação, referiu Bilhota Xavier, leva a um "consumo indevido de sedativos e indutores do sono", quando "se pode corrigir com outras estratégias".

O pediatra considerou que o sono é um problema "muito importante" e que vai causar "dificuldades de aprendizagem".

"Está provado que 50 a 60 por cento das crianças com problemas do sono vão ter excesso de peso ou vão ser adolescentes obesos. A associação tem a ver com a produção de hormonas e com o nosso metabolismo celular", informou Bilhota Xavier.

As perturbações e patologias do sono são o tema das XX Jornadas de Pediatria de Leiria e Caldas da Rainha, que decorrem dias 29 e 30 no Hospital de Santo André, unidade do Centro Hospitalar Leiria-Pombal, sob o tema "Consensos sobre diagnóstico e tratamento das perturbações e patologia do sono".

Lusa/SOL

http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=63766

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Estudo revela que tabaco prejudica o cérebro

Uma investigação realizada pelo Kings College de Londres, em Inglaterra, concluiu que o consumo de tabaco a longo prazo retira as capacidades cognitivas.

O estudo, feito a 8800 pessoas com mais de 50 anos, durante oito anos, mostra que os fumadores apresentam tensão arterial muito elevada e peso acima da média. Também verificou-se que os estilos de vida podem influenciar não só o corpo mas também o cérebro, aumentando a probabilidade de ataques cardíacos ou AVC.

Alex Dregan, um dos investigadores, afirma que “o declínio cognitivo aumenta com o envelhecimento, estando também associado à vida social e ao bem-estar”.

Paralelamente, os investigadores realizaram alguns testes para testar as capacidades cognitivas dos voluntários, pedindo para que assimilassem novas palavras.

Os resultados mostram que há uma menor capacidade cognitiva, dependendo da quantidade de cigarros fumados por dia. Além disso, “os ricos de ataques cardíacos ou AVC estão fortemente relacionados com a fraca capacidade cognitiva”.

A estas doenças acrescente-se a demência. Em declarações à BBC, Simon Ridley, especialista que realizou vários estudos sobre a doença de Alzheimer, explica que estas conclusões vêm reforçar os estudos já feitos a nível desta doença. “Uma em cada três pessoas com mais de 65 anos vai desenvolver a demência, mas há coisas que as pessoas podem fazer para reduzir seu risco”.

Para o investigador, “ fazer uma dieta saudável, manter o peso equilibrado, fazer exercício regularmente, controlar a pressão sanguínea e o colesterol e não fumar pode fazer a diferença”.

Uma ideia reforçada por Dregan, que acrescenta a importância de “mudar os estilos de vida, de modo a evitar a baixa capacidade cognitiva”.

http://www.ionline.pt/iciencia/estudo-revela-tabaco-prejudica-cerebro

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Pais estão pouco conscientes do «cyberbullying»

Os pais estão «pouco conscientes» da violência com recurso a meios eletrónicos («cyberbullying») e supervisionam pouco o uso da Internet pelos filhos, no entender do especialista em Ciências da Educação João Amado.

«Hoje, compra-se um computador para o filho mas faz-se pouca supervisão do acesso à Interne. Os pais não fazem uma monitorização da vida dos filhos», alertou, em declarações à Lusa, nesta segunda-feira.

João Amado coordena uma equipa de investigadores da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (UC) que vai realizar, a partir de quarta-feira, em Coimbra, três cursos sobre «cyberbullying», destinados a pais e formadores.

O objetivo é dotar os pais com «conhecimentos e estratégias sobre como lidar com o cyberbullying, o que inclui apresentações baseadas em evidência teórica, exercícios práticos e discussões reflexivas», diz uma nota divulgada pela UC.

O «cyberbullying» é o uso e difusão de uma informação ou de imagens para gozar, intimidar, humilhar e difamar outro, recorrendo a meios tecnológicos como Internet, telemóvel ou suportes digitais.

Trata-se de «um problema ainda pouco presente na cabeça dos pais», considerou o especialista, alertando que «é aos 10, 11, 13 anos quando as crianças se perdem neste tipo de brincadeira, e é preciso ter consciência da gravidade da questão».

«É essencial a supervisão por parte dos pais; conversarem com os filhos, mostrarem preocupação e interesse» pelo que eles fazem, sustentou.

João Amado aconselhou os pais a «estarem atentos sobretudo a determinados sinais», como «começarem a não querer ir à escola, por motivos vários, e [ao] isolamento demasiado evidente, como deixarem de ter ou de contactar com amigos».

«Se os pais suspeitarem de alguma coisa, devem tentar falar com os responsáveis de determinadas contas, para que sejam retiradas da Internet», sugeriu.

Financiado pela União Europeia, o projeto CyberTraining para Pais oferece cursos para formadores e pais, tendo em conta, de modo especial, a tomada de medidas contra o «cyberbullying».

http://www.psicologia.pt/noticias/ver_noticia.php?codigo=NO01683

sábado, 24 de novembro de 2012

Porque devem os pais pôr os filhos a chorar?

A ideia de fazer tudo para que os filhos sejam felizes, evitando que chorem, está ultrapassada. A teoria de disciplinar sem que a criança chore está desactualizada, diz Gordon Neufeld, psicólogo clínico canadiano que esteve em Portugal no final da semana.
“As crianças precisam da tristeza, da tragédia para crescerem. Precisam de ter as suas lágrimas”, defende. Nos primeiros meses e anos de vida, o “não” dito pelos pais ajuda a disciplinar, em vez de estragar a criança. “Estamos a perder isso na nossa sociedade, não admira que as crianças estejam estragadas com mimos. Afinal, elas são sempre as vencedoras”, continua o investigador que esteve em Lisboa a convite da empresa BeFamily, do Fórum Europeu das Mulheres, da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas e da Associação Portuguesa de Imprensa. Na conferência sob o lema “Vínculos Fortes, Filhos Felizes”, Neufeld defende que só se atinge o bem-estar através da educação e que esta deve estar a cargo das famílias e não do Estado. E para garantir o bem-estar de qualquer ser humano ou sociedade é necessário preencher seis necessidades. A primeira é o “aprender a crescer” e para isso há que chorar, é preciso que a criança seja confrontada, que viva conflitos, de maneira a amadurecer, a tornar-se resiliente, a saber viver em sociedade. A segunda necessidade é a de a criança criar vínculos profundos com os adultos, estabelecer relações fortes. Como é que se faz? “Ganhando o coração dos filhos. É preciso amarmos e eles amarem-nos. Temos de ter o seu coração, mas perdemos essa noção”, lamenta o especialista que conta que, quando lhe entram na consulta pais preocupados com o comportamento violento dos filhos, a primeira pergunta que faz é: “Tem o coração do seu filho?”, uma questão que poucos compreendem, confidencia. E dá um exemplo: Qual é a principal preocupação dos pais quanto à escola? Não é saber qual a formação do professor ou se este é competente. O que os pais querem saber é se a criança gosta do docente e vice-versa. “E esta relação permite prever o sucesso académico da criança”, sublinha Neufeld, reforçando a importância de “estabelecer ligações”. E esta ligação deve ser contínua – a terceira necessidade –, de maneira a evitar problemas. Neufeld recorda que o maior medo das crianças é o da separação. Quando estão longe dos pais, as crianças começam a ficar ansiosas e esse sentimento pode crescer com elas, daí a permanente procura de contacto, por exemplo, entre os adolescentes com as mensagens enviadas por telemóvel ou nas redes sociais, muitas vezes, ligando-se a pessoas que nem conhecem, alerta o especialista. O canadiano recomenda que os pais estabeleçam pontes com os seus filhos. Quando a hora da separação se aproxima, há que assegurar que o reencontro vai acontecer. Antes de sair da escola, dizer “até logo”; à hora de deitar, prometer “vou sonhar contigo”. Mas a separação não é só física, há palavras que separam como “tu és a minha morte” ou “tu és a minha vergonha”. Mesmo quando há problemas graves para resolver, a frase “não te preocupes, serei sempre teu pai” ajuda a lembrar que a relação entre pai e filho é mais importante do que o problema. Hold on to your kids é o nome do livro que escreveu e onde defende esta teoria. A importância de brincar A quarta necessidade a ter em conta para garantir o bem-estar dos filhos é a necessidade de descansar. Cabe aos adultos providenciar o descanso e este passa por os pais serem pessoas seguras e que assegurem a relação com os filhos. As crianças precisam que os pais assumam a responsabilidade da relação, que mantenham e alimentem a relação, de modo a que elas possam descansar e, nesse período, desenvolver outras competências. Uma criança que está ansiosa pela atenção dos pais não está atenta na escola, por exemplo. Brincar é a quinta necessidade a suprir. Não há mamífero que não brinque e é nesse contexto que se desenvolve, aponta Neufeld. E brincar não é estar à frente de uma consola ou de um computador; é “movimentar-se livremente num espaço limitado”, não é algo que se aprenda ou que se ensine. E, neste ponto, Neufeld critica o facto de as crianças irem cada vez mais cedo para a escola, o que não promove o desenvolvimento da brincadeira. “Os ecrãs estão a sufocar a brincadeira e as crianças não têm tempo suficiente para brincarem”, nota o psicólogo clínico que, nas últimas semanas, fez um périplo por vários países europeus, tendo sido ouvido no Parlamento Europeu, em Bruxelas sobre “qualidade na infância”. Por fim, a sexta necessidade é a de ter capacidade de sentir as emoções, de ter um “coração sensível”. “Estamos tão focados em questões de comportamento, de aprendizagem, de educação; em definir o que são traumas; que nos esquecemos do que são os sentimentos. As crianças estão a perder os sentimentos quando dizem ‘não quero saber’, ‘isso não me interessa’, estão a perder os seus corações sensíveis”, diz Neufeld. Em resumo, é necessário que os pais criem uma forte relação emocional com os filhos, de maneira a que estes sejam saudáveis. Os pais são os primeiros e são insubstituíveis na educação dos filhos e são eles que devem ser responsáveis pelo seu desenvolvimento integral e felicidade. Se assim for, estarão também a contribuir para o bem-estar da sociedade. Por: Bárbara Wong

Não há recuperação económica sem cuidar da Saúde Mental dos cidadãos

Na actual conjuntura de crise económica, a contenção dos gastos e o estabelecimento de prioridades com base em critérios de custo-efectividade e baseadas na evidência ganham especial relevância. A Intervenção Psicológica permite uma redução dos gastos directos e indirectos com a saúde e com a doença e, neste sentido, contribui para a melhoria da eficiência dos serviços de saúde. Por outro lado, permite uma melhoria substancial na saúde e na qualidade de vida dos cidadãos que se reflectirá num aumento da produtividade e na redução do absentismo laboral.
É conhecido o impacto da crise económica na saúde dos cidadãos. Em Portugal este impacto reflecte-se num aumento do número de suicídios e de consumo de anti-depressivos e ansiolíticos que se tem vindo a acentuar nos últimos anos. Existe evidência sobre a efectividade da intervenção psicológica na melhoria do estado de saúde do cidadão e na redução dos custos directos (redução número de consultas, do número de dias de internamentos e do consumo de fármacos) e indirectos com a doença (redução do absentismo; redução dos encargos do Estado com os benefícios fiscais para o doente e menor produtividade). A Ordem dos Psicólogos Portugueses publicou um relatório que reúne um conjunto de estudos que demonstram o contributo da Psicologia para a redução dos custos e melhoria da eficiência dos serviços de saúde. A intervenção psicológica apresenta um custo-efectividade que possibilita não só pagar a própria intervenção como obter ganhos em saúde. Isto acontece porque a intervenção psicológica tem custos reduzidos e taxas de recuperação elevadas comparativamente aos custos elevados da incapacidade. A evidência demonstra que a intervenção psicológica permite uma poupança de cerca de 20 a 30% nos custos directos da saúde, através da redução da utilização dos cuidados de saúde. A consulta psicológica chega mesmo a permitir uma diminuição das consultas de medicina familiar por utente. Em utentes com patologia crónica como a diabetes, a hipertensão arterial, cancro ou asma verifica-se que intervenção psicológica dirigida à depressão e ansiedade permite reduzir os custos totais com a doença em cerca de 20%. Um estudo sobre a psicoterapia nos cuidados de saúde permitiu verificar que 60,4% dos participantes referiu ter procurado, nos últimos 3 anos, algum tipo de apoio psicológico. No período de tempo a que se referiu o estudo (últimos três anos), 28% da amostra total recorreu a profissionais de ajuda. Os resultados deste estudo permitem verificar que a maioria dos consumidores afirma ter melhorado e estar satisfeita com a intervenção psicológica desenvolvida, quando esta pressupõe terapia verbal. A intervenção apenas baseada em psicofármacos está associada a piores índices de melhoria e de satisfação. A melhoria do estado emocional geral é encontrada em 80% dos casos seguidos por psicólogos. Recentemente a Directora-geral da Comissão Europeia para a Saúde e Consumidores, Paola Testori-Coggi, afirmou a relevância da Psicologia para a melhoria da saúde e bem-estar dos cidadãos e para a implementação de estratégias europeias de saúde como a “Health for all”. Análises desenvolvidas pela OPP têm demonstrado que existem Profissionais capacitados e prontos para contribuir para a melhoria da saúde mental da população e para recuperação económica do país. No entanto esta tem sido uma oportunidade perdida, pois não tem sido feita uma aposta política na implementação da consulta de psicologia a nível nacional. A distribuição de psicólogos é assimétrica e desfasada das necessidades de procura, por exemplo o Alentejo é a região do país como maior número de suicídio e com um maior envelhecimento da população, sendo também das que apresenta menor número de psicólogos integrados no Sistema Nacional de Saúde. Desta forma desperdiçam-se recursos e não se melhora a saúde da população. A ausência de um investimento forte na criação de uma boa coberta nacional de consulta psicológica nos cuidados de saúde, nomeadamente nos cuidados de saúde primários, teria um impacto imediato na saúde dos cidadãos e na poupança para do Serviço Nacional de Saúde. Neste dia da Saúde Mental a Ordem dos Psicólogos informa que está desenvolver um plano de acção para a implementação da figura do Psicólogo de Família nos Cuidados de Saúde Primários. O Psicólogo de Família será o primeiro elo de ligação entre o cidadão e os cuidados psicológicos e permitirá assegurar uma maior cobertura do acesso e das necessidades de saúde da população. Uma melhor organização da consulta psicológica nos cuidados de saúde primários permitirá desenvolver respostas mais efectivas às necessidades e fazer face ao aumento esperado da procura de apoio psicológico. Este profissional deverá trabalhar em estreita colaboração com o médico de família na identificação e diagnóstico precoce de perturbações complexas que requerem referenciação para especialista. Assim, para além da intervenção psicológica, que já realiza no âmbito do seu trabalho, o Psicólogo poderá realizar actividades de triagem, reencaminhando os utentes para especialistas quando a complexidade e especificidade do caso assim o determinar (exemplo: psicólogo especialista em crianças e adolescentes). Através de um acompanhamento de proximidade, da identificação e de diagnóstico precoce de situações de maior complexidade é possível intervir adequadamente e referenciar os utentes para cuidados especializados, contribuindo assim para uma maior eficácia da intervenção psicológica, para melhoria da saúde dos cidadãos e para recuperação económica do país. Tem de haver uma afirmação inequívoca de compromisso das autoridades e demais agentes de saúde com a promoção da saúde Mental dos Portugueses. A Ordem dos Psicólogos está disponível para contribuir activamente para o desenvolvimento de soluções inovadoras que permitam uma rápida recuperação da crise. https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/542#.ULC3yodWySo